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Rondônia

Vida e Liberdade, à la Francesa – Por Geraldo Gabliel

6 minutos de leitura

Vida e Liberdade, à la Francesa¹

Olhar que brilha na Cidade Luz

Por Geraldo Gabliel

LOANNA JOLIE

12 Place Georges Pompidou, 93160

Noisy-le-Grand (Esbly Ville)

PARIS – FRANCE

Loanna Carla Jolie pisou em Paris² com olhos encantados e uma alma brasileira acostumada a abraços apertados, cafés adoçados e conversas altas no metrô. Imaginava uma cidade de baguetes perfeitas, perfumes eternos e garçons com boinas que declamam poesia. Mas, o que encontrou foi um mosaico de contrastes, curiosidades — e muitas vezes, perplexidades.

Geh Latinus recorda muito bem de perplexidades vividas em Paris por ocasião da Comemoração da Queda da Bastilha (17 de julho de 2007): Caminhando pela Champs-Èlysées, chega no Arc de Triomphe – e levava hasteada consigo, em sua mochila, a bandeira do Brasil. Que perigo! Logo à entrada do Monumento, um policial – alto, simpático, gentil – o advertiu de que Geh não podia levar exposta a bandeira brasileira – afinal, se comemorava naquele local, o dia da Bastilha, ou festa Nacional Francesa – quando houve a tomada da prisão da Bastilha em 1798 – um símbolo do poder absolutista do Antigo Regime. Ah! Geh Latinus escondeu a sua bandeira como pôde… e subiu ao topo do Arc… E lá, novamente, o mesmo fonctionnaire de police  o abordou de novo: – Ainda pode-se ver parte de sua bandeira. – digo-lhe outra vez: – Guarde-a já! (Guardei, é claro!) – Saudades de Cloe, na Gare da Bastilha!

Voltemos a nos encontrar com Luanna Jolie…

Logo nos primeiros dias, ouviu tantas vezes “madame” e “monsieur” que chegou a pensar que tinha envelhecido subitamente. Aquela formalidade toda, embora elegante, parecia retirada de um filme de época. E os cumprimentos então? Três beijos, dois ou um? Toda vez que conhecia alguém, era como participar de um ritual secreto, cujo protocolo ninguém explicava direito. Uma parisiense a advertiu certa vez: “Aqui se beija até quem não se gosta. Faz parte.”

– Na padaria, ao tentar virar a baguete de cabeça para baixo, fui repreendida com um olhar grave. “Dá azar”, disseram. E como boa curiosa, decidiu seguir a superstição — vai que… Lembrava das muitas superstições vividas no Brasil.

Certa tarde no metrô, tentando puxar papo com uma senhora ao lado, foi ignorada com a maestria de quem nasceu para parecer indiferente. No Brasil, teria recebido um “tudo bem” e, quem sabe, até uma história de família completa. Em Paris, o silêncio é regra — especialmente nos transportes públicos. Um sussurro alto já parece escândalo. Mas havia beleza até nesse silêncio civilizado. Au revoir Mademoseille!

Durante um almoço de três horas, sem pressa e com pelo menos cinco etapas gastronômicas, descobriu que ali comer era arte — e resistência. Queijos, alguns, de nomes impronunciáveis (Ela gosta de queijo Brie), vinhos que custavam pequenas fortunas, sobremesas em porções minimalistas. Ao tentar pedir um “petit gâteau”, recebeu um olhar confuso. “Madame, aqui chamamos de mi-cuit au chocolat”. E assim descobriu que o famoso bolinho quente do gatinho era, na França, praticamente um mito exportado. (Ah! Pão Francês – é do Brasil… nada francês).

Nas caminhadas pelos bairros mais charmosos, Loanna descobriu uma Paris menos turística e mais humana: cafés com bibliotecas comunitárias, livrarias abertas até tarde, exposições ao ar livre. A cultura estava por todo canto — e muitas vezes, gratuita. Museus, teatros, concertos ao ar livre. Um país que valoriza sua herança como quem protege um jardim de infância: com zelo, orgulho e acesso universal.

A cada conversa e descoberta, Loanna encontrava mais motivos para se espantar — inclusive com os clichês. Sim, há franceses ranzinzas, mas também há gentileza despretensiosa. Sim, eles não escovam os dentes em público, mas criaram os melhores perfumes. E ainda que não tomem três banhos por dia, inventaram o sistema métrico, o cinema, o estetoscópio e — pasme — até as placas de automóvel. Fui ao Cinematic na Disney de Paris – é surreal.

O Espanto da Torre, os Beijos no Rosto e as Verdades por Trás dos Estereótipos”

– Descobri que a Torre Eiffel quase foi demolida, e só foi salva por servir como torre de transmissão. Que o francês foi idioma oficial da Inglaterra por quase 300 anos, e que palavras como résumé, garage e restaurant vieram de lá. Que a Académie Française tenta, desde 1634, proteger a língua francesa de invasões estrangeiras — sem muito sucesso, já que palavras como email, blog e weekend continuam firmes no vocabulário cotidiano francês.

Na rádio, pelo menos 40% das músicas devem ser em francês — e mesmo assim, ela ouviu Edith Piaf e Daft Punk dividindo espaço. Foi ao Louvre, o museu mais visitado do mundo, e se perdeu entre turistas, obras-primas e a certeza de que a Monalisa é menor do que parecia. Verdade! Ah Monalisa! – Geh Latinus esteve vis-à-vis com essa moça em 2007 quando, numa exposição de pintores renascentistas no Louvre, esteve diante “do padrão de beleza da mulher na época de Leonardo Da Vince” – o quadro mais famoso da história da arte”.

Riu ao saber que “sair à francesa” lá é “sair à inglesa”, que o croissant veio da Áustria, e que o McDonald’s serve cerveja (mas não refil de refrigerante, por lei contra a obesidade). Descobriu que o Tour de France tem mais de 100 anos, que há 12 fusos horários franceses no mundo, e que na estação de trem há pianos livres esperando que alguém toque — o que ela fez, ainda que só uma tecla de cada vez. (Que parte do território francês faz divisa com o Brasil?).

E quando soube que os franceses comem mais de 30 mil toneladas de escargot (caramujos) por ano, apenas respirou fundo e decidiu manter sua dieta tropical. Já bastava o susto da primeira taça de vinho de  €80 euros.

Loanna começou a desconfiar que talvez Paris fosse, de fato, um grande livro — daqueles cheios de rodapés, ironias e trechos sublinhados em silêncio. Sim, ali se pode casar com alguém morto (desde que haja provas de intenção), e em 1910 foi proibido beijar nas plataformas de trem para evitar atrasos. Mas também é o berço de Beauvoir e Sartre, de Baudelaire e Descartes, do cinema dos irmãos Lumière e do romance mais longo do mundo — de Proust, claro. Digo aqui por minha conta: – dizem que  “República” tem, também, origem francesa –  influência do Iluminismo,  lá pelos ídos do  século XVIII.

Ao retornar ao Brasil, de boas férias em casa,  Loanna trazia muito mais que recordações. Era parte de uma colcha de retalhos culturais, costurada com queijos, poemas, escargots e pianos de estação. E se perguntassem o que ela achou de Paris, talvez dissesse apenas: – “É preciso viver para entender” – Il faut le vivre pour le comprendre.

– Ça va? Je ne sais pas parler français Loannah. Ça va bien?  (Liberté, Égalité e Fraternité).

De Cacoal e, Rolim de Moura – RO – onde viveu intensamente Loanna Carla Jolie! Em 05 de julho de 2025.

¹ https://www.liberties.eu/en/stories/liberte-egalite-fraternite/43532 Acesso em 28 de junho de 2025.

² https://www.carpemundi.com.br/curiosidades-de-paris/ Acesso em 05 de julho de 2025.

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